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Cultura de Borla

A Cultura que não tem preço.

A PALAVRA AOS ARTISTAS - ANA VIEIRA

Por ocasião da exposição Narrativa de uma Colecção – Arte Portuguesa na Colecção da Secretaria de Estado da Cultura (1960-1990), (actualmente no novo espaço do MNAC-MC na Rua Capelo), o São Luiz Teatro Municipal e o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado promovem uma mostra dos filmes realizados pelos Artistas Unidos sobre artistas cujas obras integram a colecção. O ciclo A PALAVRA AOS ARTISTAS continua com a projecção de ANA VIEIRA: e o que não é visto, de Jorge Silva Melo, no dia 9 de Novembro, pelas 18h30, no São Luiz Teatro Municipal.

 

 

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               Ana Vieira era para mim um nome distante, um rosto mítico, uma fotografia, uma memória de exposições na Quadrante (das Avenidas Novas) naqueles anos 70 cheios de pressa. Até que uma noite, no velho       edifício d´ A Capital, onde, felizes, funcionaram os Artistas Unidos, a recepcionista me disse que uma senhora passara e deixara um projecto para mim. Lá ficou uns dias, nem olhei. E uma manhã vi, era o                projecto “Casa Desabitada” e quem se propunha trabalhar connosco naquele edifício em ruínas, naquele barracão imundo era Ana Vieira. Eu não a conhecia, fiquei, confesso, comovido: que alguém com o              percurso e o prestígio, a obra de Ana Vieira, queira meter-se com gente acampada em edifício em ruínas, era inesperado. E só possível por-que A Capital, a pouco e pouco, parecia um lugar possível, uma    plataforma para os artistas, um lugar desejado. Depois, foi o corridinho do costume, negociações com as autoridades, fecho, suspensão de actividades, o exílio, o desterro no Teatro Taborda. Mas a ideia       prosseguiu, a proposta de Ana Vieira fez-se. Em Lisboa e no Porto. Com a colaboração imprescindível de Liliana Coutinho (que viria a dedicar um estudo exemplar à obra da Artista publicado na Editorial   Caminho), que também convoquei para me ajudar neste documentário. Depois de 2004, não nos perdemos de vista. Em 2008/9, fizemos, com a Porta 33 (Funchal), a exposição IN/VISIBILIDADE, que, em     Lisboa, foi montada no Palácio Marquês de Pombal, à rua do Século. Agora, em 2010-11, a obra de Ana Vieira vai voltar a ver-se. Primeiro, no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada; depois, em Janeiro de           2011, no CAM. Uma retrospectiva, uma revisão, uma oportunidade única de ver (o que não se vê). O que não se vê porque está guardado, porque não é mostrável, porque a arte de Ana não é a de “colorir uns            metros quadrados para pendurar na parede”. Mas o que não se vê (ou se vê de esguelha, espiando, deslocando o ponto de vista, recusando a frontalidade do renascimento) é o assunto principal deste              trabalho intransigente. No cinema, designa-se isso por “off” e é o assunto principal de muitos dos mais belos planos. No teatro, chamou-se a isso “bastidores”, é onde morrem Jocasta e Antígona, se cega     Édipo, morre Fedra. Nós só sabemos, porque, felizmente, Téramène na “Fedra” ou o Soldado no “Rei Édipo”, ecos, testemunhas, nos vêm contar. Ou porque Ana Vieira, guardadora das sombras, lhes fixou a                 traça? Filmar o invisível, é assim um destino: filmar o rasto (rastejar?), a ausência, colocar-me à indiscreta janela (é belo o inglês, Rear Window) onde passam as sombras, na caverna.

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Jorge Silva Melo

 

As próximas sessões de A PALAVRA AOS ARTISTAS terão o seguinte calendário:

9 NOV Segunda às 18h30 ANA VIEIRA Conversa com Paulo Pires do Vale Ana Vieira: E o Que Não é Visto de Jorge Silva Melo (2011, 60 min, M/6)

 

25 JAN Segunda às 18h30 ÁLVARO LAPA . Conversa com José Bragança de Miranda Álvaro Lapa: A Literatura (2007, 100 min, a classificar pela CCE)