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Cultura de Borla

A Cultura que não tem preço.

Conversa com os artistas . Sábado 24 Fev . 15h . De-A-a-A, Calpi & Camarao| Últimos dias

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Calpi & Camarao, heterónimo criado para esta exposição, traz para o espaço da galeria o processo de uma criação conjunta, o ideal de partilha e a sua associação (ou colectividade). O método assenta num acordo de cedência e contaminação, conciliando a expressão individual com a expressão colectiva, em diálogo. Orquestrado por A.calpi e Alexandre Camarao, a elaboração da personagem acontece através da intuição, do humor e da poesia, num exercício de liberdade que procura suprimir o controlo exercido pela razão e pela aura autoral. Um jogo onde, à semelhança do cadavre-exquis, um artista dá continuidade ao trabalho do outro.

Neste caso, a continuidade está alinhada com a afinidade: tanto A.calpi como Alexandre Camarao são recolectores compulsivos que partem da vontade primária de produzir com base na agregação (ora de imagens, sons, materiais, resíduos, objectos e/ou restos) e na apropriação (de múltiplas referências como a história da arte, a mitologia, as artes decorativas, a cenografia, o design e a música), oscilando entre elementos pop e de cultura erudita, sem hierarquias nem prejuízos. Assim, esta metodologia mais que um acumular constitui, num sentido literal, uma extensão do pensamento.

Contudo, são os objectos que seduzem A.calpi, e as imagens que cativam Camarao. No primeiro caso, o artista trabalha com objectos do quotidiano e restos das mais diversas origens. A.calpi dedica-se a acumular, recolher, organizar e alterar continuamente o espaço íntimo do seu apartamento e dos objectos nele presentes. A tarefa consta na adaptação e aproveitamento dos objectos e materiais coleccionados, procurados ou encontrados ao sabor do acaso, e logo utilizados em acumulações que, aparentemente escolhidas de forma aleatória, detém as qualidades do ready- made. Por sua vez, Alexandre Camarao trabalha com imagens digitais, bebendo do excesso de visualidade e transformando o ruído das redes sociais em arquivos vibrantes e vivazes que se assemelham a diagramas visuais e servem de base aos desenhos, às colagens, pinturas e/ ou tapeçarias. Um trabalho que não pode ser lido sem ter em conta o seu percurso musical que contamina por arrasto todas as restantes intervenções e evidencia uma origem por vezes rítmica nas composições.

O conjunto de intervenções apresentado em “De-A-a-A” é assim uma metamorfose artística de autoria dupla, em que a delicadeza dos artefactos contrasta com a euforia das cores. Ao percorrer os dois andares do espaço, o repertório de colagens, esculturas, instalações, e/ou assemblages coloca o visitante no centro da acção, como parte activa deste diálogo. Um diálogo sinestésico onde cada interveniente ganha um novo sentido, formando uma colecção singular de objectos, como se cada um deles pudesse, em potência, encarnar outras personagens ainda.


Carolina Trigueiros

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