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Cultura de Borla

A Cultura que não tem preço.

“Desenho sem fim” de Rui Chafes inaugura este sábado no CIAJG (8 dezembro)

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Este sábado, o Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) inaugura uma exposição de Rui Chafes onde se visita um dos mais secretos segmentos do seu trabalho ainda por conhecer como um todo, a produção em desenho – luminosa revelação de um imenso e denso universo de fantasmas e formas. “Desenho sem fim”, de Rui Chafes, junta-se assim às exposições de João Cutileiro e José de Guimarães, completando o último ciclo expositivo deste ano do CIAJG. A inauguração, com entrada livre, está marcada para 8 de dezembro, às 18h00.

 

Revelar grupos de trabalho inéditos ou menos conhecidos de artistas centrais do panorama artístico em Portugal, contribuindo assim para elucidar e ampliar o conhecimento dos respetivos percursos, tem sido uma das estratégias de programação do CIAJG. Neste ciclo expositivo, em três novas e extensas exposições, especificamente produzidas para o espaço do Centro, lança-se um olhar retrospetivo sobre os anos iniciais do trabalho de João Cutileiro, altura em que, entre Londres e Évora, redefiniu a prática da escultura em Portugal; resgata-se do atelier de José de Guimarães um conjunto de pequenas esculturas nunca antes mostradas que desvelam uma rara prática experimental e processual; e desvenda-se um alargado e extenso conjunto de desenhos de Rui Chafes que oferece uma renovada visão do trabalho deste artista essencialmente conhecido pela produção em escultura.

 

O desenho é na obra de Rui Chafes (Lisboa, 1966) o lugar do segredo e do intervalo. Surge normalmente em períodos de pausa, mais ou menos longos, na prática da escultura e desenvolve-se ao longo de todo o percurso do artista. Em “Desenho sem fim”, o CIAJG lança um olhar retrospetivo sobre uma produção que começou de forma consistente em 1987 e que prossegue até aos dias de hoje.

 

Esta primeira exposição antológica de desenhos de Rui Chafes reúne trabalhos realizados em momentos muito diversos do seu percurso, recuando até ao final da década de 1980 e ao período subsequente, em que estudou na Kunstakademie Dusseldorf com Gerhard Merz e prosseguindo até obras de 2017. De uma forma não-linear, a exposição mergulha no labirinto de referências e entrelaçamentos da obra em desenho de Chafes, propondo possibilidades de entendimento da sua obra por vezes surpreendentes e revelando o caráter atemporal e recursivo do seu percurso. Iniciando-se com a série de desenhos realizados na Alemanha em 1990, estabelece-se uma galeria de referências literárias, filosóficas e cinematográficas (de Platão a Samuel Beckett, Nietzshe ou Rainer Werner Fassbinder), com uma recorrência de figuras do Romantismo Alemão (de Wagner a Goethe, passando por Novalis ou Caspar David Friedrich) que são confrontados com elementos arquitetónicos de uma possível escultura infinda.

 

No conjunto dos trabalhos apresentados são usados, repetidamente, materiais que não pertencem ao domínio dos materiais “de arte”, como remédios, tinturas, chá, flores esmagadas e que convocam uma inescapável ligação ao corpo e à sua permanente queda; a representação de interiores do corpo, vagas configurações viscerais que, ora remetem para figurações sexuais, ora para a decomposição; elementos arquitetónicos que parecem remeter para a escultura ou a racionalidade arquitetónica, ora se metamorfoseiam na arquitetura das plantas, numa aparente alusão a Goethe e ao pintor romântico alemão Phillip Otto Runge, ou apresentam, violentamente, a doença, a dor, a mutilação, a prótese, ou a ortótese.

 

Esta ligação entre o desenho e a escultura parece ser sempre a continuação das preocupações expressas num texto de Rui Chafes de 1990, no qual o artista fala da escultura como uma esperança do objeto. A ideia de fuga, de perecibilidade, da inevitabilidade da morte contida na própria possibilidade de vida, temáticas que têm atravessado todo o percurso de Rui Chafes, encontra-se em estado de crisálida (por vezes literalmente e assim figurada) nos seus desenhos, apontando para uma visão a-histórica e gótica do mundo. A eloquência e o caráter trágico das temáticas não deixa, no entanto, de ser permanentemente confrontada com uma leveza que nasce dos corpos femininos, ninfas faustianas que florescem na decomposição dos órgãos, no peso das referências filosóficas e na presença da morte que salpica toda a sua produção gráfica.

 

Naturalmente ligados aos acontecimentos da vida do artista, estes desenhos surgem como o resultado de uma sismografia, registando os seres, os lugares, as energias, os momentos de felicidade e de desgosto, os dias de frio e de calor, a memória e o desejo, fazendo emergir o passado à superfície do papel ou antecipando aquilo que está por vir. “Desenho sem fim” tem curadoria de Delfim Sardo e Nuno Faria e poderá ser visitada até 10 de fevereiro de 2019, juntamente com as exposições “Constelação Cutileiro” e “José de Guimarães / Da dobra e do corte”. Recordamos que o CIAJG se encontra aberto de terça a domingo, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 19h00. Aos domingos de manhã, a entrada é gratuita.