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Cultura de Borla

A Cultura que não tem preço.

“Despe-te [Isabel]”, de Ella Hickson

DESPE-TE [ISABEL] é uma criação ENSEMBLE - SOCIEDADE DE ACTORES, numa coprodução com a Casa das Artes de Famalicão e estreia neste teatro municipal nos dias 10, 11 e 12 de junho, às 20h30.

Trata-se de mais um espetáculo enquadrado com os 20 anos da Casa das Artes de Famalicão data que, assinale-se, se comemora precisamente amanhã, dia 01 de junho de 2021.

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Apresentação:

"A minha mãe seduziu um homem com tanto sucesso que ele alterou a história constitucional deste país. Conseguiu evitar ir para a cama com o meu pai durante quatro anos. Quando, finalmente, baixou as cuecas, perdeu tudo. A cabeça incluída."

Isabel I foi a única mulher solteira que alguma vez governou a Inglaterra. E reinou durante quarenta e quatro anos. O poder é um jogo e ela percebeu isso melhor do que ninguém.

Estreada no Teatro Sam Whanamaker no Shakespeare's Globe, em Londres, em 2019, esta peça reflecte sobre os modos e meios que as mulheres no poder são obrigadas a usar para resistirem à pressão masculina e conseguirem sobreviver num mundo que é fundamentalmente hostil com elas e os seus corpos.

Mais do que pretender ser uma peça histórica, Despe-te [Isabel] lança um olhar eloquente e intelectualmente ágil a temas contemporâneos sob um prisma histórico.

 

“Todo o mundo é um palco,

E todo o homem e mulher, não mais que atores”, William Shakespeare

Vir ao mundo divina, filha de reis, herdeira de tronos; sobreviver, à luz de velas que mal espantam a escuridão, à execução da mãe; assistir ao desmoronar da linha de sucessão à sua frente, abrindo-se-lhe o caminho até à coroa como que por intervenção dos céus; ser coroada depois de duas vezes encarcerada, à morte tendo escapado pela força do génio; ver o mundo todo conquistado e ela, sozinha, lá no alto, vitoriosa, e, ainda assim, que lhe seja repetido, uma e outra vez, por palavras e gestos: não passas de uma mulher.

Não havia de ter homem, de ter dono, nem havia de gerar filhos. Não seria o que é suposto uma mulher ser, nem muito menos faria o que é aconselhável uma mulher fazer. Sobraria apenas a rainha que os séculos batizaram como virgem, pois à história é-lhe difícil distinguir a pessoa do género. Virgem. A que não teve sexo. Sim, não o teve, mas não falamos do ato. Isabel foi simplesmente Isabel.

O poder é um jogo de espelhos e o seu exercício, que tão simplesmente nos aproximemos ou distanciemos do nosso reflexo. E, quanto mais longe, mais difuso ele se torna. Consequentemente, mais poderoso, porque menos claro, menos suscetível de se deixar prender e fixar. Aqui, neste espetáculo, a alegoria transubstancia-se na cena. No espelho gigante, que vemos bailar por si pelo palco fora, Isabel não se deixa definir pela imagem que supomos ver refletida. Joga o jogo, apenas. Afasta-se e aproxima-se. E não há aqui homens para ver projetados, tão somente personagens masculinas que atrizes interpretam. Despindo-as dos corpos varonis, sobra apenas a ideia do homem, a ideia do conquistador sexual e político que insiste em querer ver de Isabel um reflexo que o assegure na sua própria condição. Um reflexo que não o assuste. Reduzido a personagem, o homem, assim entendido, revela-se apenas uma imagem possível, entre muitas. Uma interpretação, entre muitas, do que é ser-se homem. E, quando confiada a mulheres, essa mesma interpretação revela-se em toda a sua fragilidade.

Que se dispa Isabel, é o que o título lhe pede. E ela assim o faz. Mas estará quem o pede, o espectador anónimo que imaginamos que o peça, preparado para contemplar a nudez da rainha?

(Pedro Galiza)

 

Equipa:

Tradução e encenação - Pedro Galiza

Música e desenho de som - Ricardo Pinto

Desenho de luz - Rui Monteiro

Figurinos - Bernardo Monteiro

Espaço cénico – Pedro Galiza

Vídeo – João Pedro Fonseca

Assistente de encenação – Inês Simões Pereira

Assistência ao desenho de luz – Tiago Silva

Assistência à produção – Sara Pacheco e Mariana Vilaça

 

Interpretação: Emília Silvestre, Ana Pinheiro, Filomena Gigante e Margarida Carvalho

 

A história…

Monarca inglesa, nascida em 1533 e falecida em 1603, Isabel I era filha de Henrique VIII e Ana Bolena, a sua segunda esposa. Teve uma infância conturbada, como conturbada era a vida política inglesa do momento, tendo chegado a estar presa e em perigo de morte. Sucedendo a Maria Tudor, ascendeu ao trono em 1558. O seu reinado duraria quatro décadas e meia, e viria a constituir um dos períodos mais marcantes da História inglesa.

Depois de anos de confrontos violentos, em que o país corria riscos constantes de eclosão de uma guerra civil, Isabel I empenhou-se em conseguir a pacificação interna. O esmorecimento dos ódios e conflitos religiosos foi uma condição fundamental para a emergência do poderio inglês no plano internacional. Na época isabelina assistiu-se ao desenvolvimento comercial do país, mas também ao florescimento da cultura. Homens como Francis Drake e Walter Raleigh dedicaram-se à exploração geográfica dos territórios recentemente descobertos. Edmund Spenser, na poesia, William Shakespeare e Christopher Marlowe, no drama, deixaram-nos obras de enorme valor. Francis Bacon e William Gilbert, entre muitos outros, dedicaram-se à filosofia e à investigação científica.

Isabel I nunca casou. Não deixando descendência, foi a última soberana inglesa da casa Tudor. Sucedeu-lhe o seu primo Jaime Stuart, o rei Jaime VI da Escócia, tornado Jaime I de Inglaterra, que deu, início à dinastia Stuart.

 

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