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Cultura de Borla

A Cultura que não tem preço.

EXPOSIÇÃO COLETIVA ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE)

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DIOGO BOLOTA | GUIOMAR OLIVEIRA | JOÃO GABRIEL | LUÍS LÁZARO MATOS | LUÍSA SALVADOR

 

CURADORIA
Carolina Bello | Carolina Marques | Catarina Nascimento | Fernando Gonçalves
Ivete Ferreira | Graça Rodrigues | Guilherme Ramos | Joana Duarte | Joana Jordão
Mafalda Teles | Rita Colaço | Vanessa Bornemann | Wilson Ledo


03 JUNHO - 08 SETEMBRO 2018
Inauguração: 02 JUNHO, 16h00 | Performance de Diogo Bolota, 17h30

 

GALERIA LIMINARE
Alameda das Linhas de Torres, 156
1750-149 Lisboa
+351 217 541 350
Quintas, sextas e sábados das 15h30 às 18h00

 

  1. APRESENTAÇÃO DO PROJETO

A exposição coletiva ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) inaugura no próximo dia 2 de junho, pelas 16h00, na Galeria Liminare, integrada na Junta de Freguesia do Luminar, em Lisboa. Diogo Bolota, Guiomar Oliveira, João Gabriel, Luís Lázaro Matos e Luísa Salvador foram os artistas escolhidos para integrar esta mostra.

Trata-se de um projeto de final de curso da terceira edição, relativa ao ano letivo de 2017/2018, da pós-graduação em Curadoria de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Depois de um primeiro semestre com uma componente essencialmente teórica, os alunos são desafiados, no segundo semestre, a colocar em prática os seus conhecimentos.

Um coletivo de curadores com áreas de formação tão diversificadas como a arquitetura, a história, a filosofia, o design ou o jornalismo reuniu-se em busca de um conceito para esta exposição. A escolha acabou por recair sobre a ideia de processo, numa busca por melhor compreender a etapa que marca e determina o trabalho artístico, anterior ao resultado final.

Nesta exposição que está patente durante o período de verão – e é também um convite para descobrir o Lumiar e a Quinta das Conchas até 8 de setembro - mostra-se o trabalho de jovens artistas, todos portugueses e com processos de trabalho diversificados. A exposição organiza-os depois em dois núcleos, para responder às questões que surgiram durante a investigação que a procede.  

ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) procurou, na definição do seu título, estabelecer uma ligação a todos os trabalhos apresentados. Partindo da noção de “obra aberta” de Umberto Eco, foram testadas várias possibilidades. Até se dar um regresso ao ponto de partida, como no próprio processo de criação artística que aqui se explora.

Eco remete-nos para uma ideia de movimento, sem a necessidade de um final. O eco encontra no vazio (de Diogo Bolota) o espaço ideal para se propagar, é marcado pela repetição (dos trabalhos de João Gabriel) e, não raras vezes, associamo-lo aos cumes das montanhas (como a que Luísa Salvador retrata).

Por fim, a palavra Eco tem raízes também no grego, onde remetia para a ideia de casa. É precisamente essa desconstrução da ideia de habitação que se pode assistir no segundo núcleo da exposição, com os trabalhos de Guiomar Oliveira e Luís Lázaro Matos.

A inauguração contará logo na inauguração com uma performance de Diogo Bolota, que intervirá na própria obra, para mostrar como o trabalho artístico está em constante mutação, mesmo depois de o artista ter decidido colocar um ponto final e apresentar um resultado.

Estão programadas conversas (em data a anunciar) e diferentes oficinas pedagógicas dirigidas a crianças e jovens que, à semelhança das visitas guiadas, funcionarão por marcação (edupgcuradoria@gmail.com).

A 5 de setembro, ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) estende-se às plataformas digitais com o lançamento da residência artística online concebida para a Raum, onde se juntam ao projeto novos artistas e novas formas de pensar o processo de criação.

Já durante a finissage, marcada para as 16h00 do dia 8 de setembro, está programado o lançamento do catálogo de exposição, com uma forte componente de reflexão sobre o trabalho desenvolvido ao longo destes últimos meses.

ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) estará aberta ao público todas as quintas, sextas e sábados das 15:30 às 18:00.

  1. CONCEITO CURATORIAL

 

ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE)

O que há entre a ideia e a obra de arte?

Processo. Etapa essencial e indispensável na criação artística, é nesta fase que as ideias se materializam, se expandem sem rigidez no tempo e no espaço. A obra é, então, resultado de um percurso onde se cruzam experiências, vontades, anseios, dúvidas.

Descrever um processo implica convocar imagens de fluidez, de liberdade, vastas possibilidades, com a certeza de que nenhum método se pode afirmar como o ideal perante outro. O processo é, no seu âmago, fenómeno múltiplo, onde o artista fixa conceitos, escolhas e memórias, salvando-os do esquecimento.

ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) procura explorar a obra de arte enquanto processo, o que a envolve até ao momento em que o seu autor a interrompe, tomando a decisão de entregá-la ao olhar de um terceiro. Mesmo que a noção de processo se tenha tornado frequente no nosso vocabulário quotidiano, poucas são as vezes em que nos debruçamos verdadeiramente sobre aquilo que antecede o resultado final.

Processo e obra estão intimamente ligados. Qualquer esforço para apartá-los, dissociá-los, seria inglório. Porque só se alcança um resultado se existir análise, investigação, decisões. Nesta exposição, o processo é encarado como algo em aberto, sem um fim à vista, através de cinco modelos distintos de trabalho artístico.

ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) propõe duas vias para organizar a sua própria metodologia: o processo como construção com Diogo Bolota, João Gabriel e Luísa Salvador; e o processo como desconstrução com Guiomar Oliveira e Luís Lázaro Matos. A construção traça-se seguindo um caminho cumulativo, praticamente interminável, para o desenvolvimento de uma ideia e o modo como esta se vai moldando uma e outra vez. Já a desconstrução parte de algo aparentemente acabado para que, separando os elementos que o constituem, se dê a criação de novas visões e se derrubem estereótipos sobre essa mesma realidade.

Na obra de Diogo Bolota (Lisboa, 1988), a escultura é extraída da folha de papel, ganha tridimensionalidade, ergue-se a partir de uma noção de tabula rasa. Sabotagem, obra pensada para um contexto específico, vê-se agora confrontada com o desafio da adaptação a um novo espaço. O princípio da metamorfose afirma-se com a intervenção do artista, propondo uma segunda configuração para a mesma obra já no espaço expositivo.

Dois momentos e duas visões distintas sobre o mesmo trabalho, para lançar, de forma intencional, a questão: alguma vez a obra de arte termina? Quando entregue ao olhar de um público, a criação entra num novo tipo de processo, o da interpretação. Perante cada espectador que se cruza com ela, e lhe atribui significado, a narrativa que a envolve adensa-se, renova-se.

Para João Gabriel (Leiria, 1992), o processo é um estado de presença, um hábito, visível pela forma como se sobrepõem múltiplas camadas em cada uma das suas propostas. A tela transforma-se num palimpsesto onde se cruzam referências, desde paisagens de infância a poses do cinema pornográfico, passando pelas inspirações recolhidas do quotidiano. A relação entre a imagem de partida e o quadro final traça-se a partir de uma noção de distanciamento, só possível através da concentração, do foco, das pausas. O artista opta por deixar as suas obras Sem Título, evocando esse mesmo carácter aberto que elas guardam.

Luísa Salvador (Lisboa, 1988) observa a montanha Sainte Victoire, formação geológica do sul de França que foi também inspiração das pinturas de Paul Cézanne. À medida que torneia a montanha, a artista viaja do concreto figurativo à abstratização nos seus desenhos. O seu processo pressupõe explorar e entender a paisagem através das suas texturas e gama cromática. Noções que, ao longo do tempo, se vão alterando com a construção de uma relação entre a artista e a montanha. A artista conduz-nos, assim, a um passado longínquo: o da formação desta elevação rochosa e da origem da paisagem.

Tanto na obra de João Gabriel como de Luísa Salvador, evidencia-se um carácter serial, de repetição. Repetir não para voltar ao mesmo sítio, mas para atingir algo novo, como num ensaio, termo designado em francês por répétition. O trabalho em séries afirma-se então como a organização gráfica e cronológica de uma procura que poderá nunca estar concluída. Os capítulos vão-se estabelecendo para que a narrativa possa continuar, mais forte, mais segura de si.

A lógica de ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) altera-se agora, introduzindo um novo núcleo, que encara o processo artístico como ato de desconstrução.

Guiomar Oliveira (Lisboa, 1985) questiona-se sobre o esforço do desenho arquitetónico em eliminar a estética a favor da utilidade, a afeção a favor da função, mesmo que o trabalho do arquiteto seja extremamente emocional. Em Rasjonelle Tegninger / Desenhos Racionais, procede a uma desconstrução através de desenhos técnicos de arquitectura, reinterpretando propostas de dois ateliers. O desenho antes definido e geométrico acolhe agora, pelos traços da artista, uma interpretação figurativa e ficcional.

E se O Grito de Edvard Munch fosse passar férias ao sul de Espanha, que casa de sonho teria? Foi o repto que Luís Lázaro Matos (Évora, 1987) lançou a 30 arquitetos. Partindo da frase publicitária “Smile You Are in Spain”, utilizada no passado para promover o turismo de sol e praia, o artista acaba por intervir nas diferentes propostas arquitectónicas recolhidas para, com o seu traço, colocar em evidência os estereótipos e os clichés que surgem naturalmente associados à imagem do país. Em Model for a Holiday Villa in Spain #2, as formas colocam-se ao serviço da ficção, reforçando o contraste entre a figura expressionista e o ambiente de alegada felicidade onde agora se vê enquadrada.

Quer na obra de Guiomar Oliveira como na de Luís Lázaro Matos, estende-se a noção do artista enquanto autor, enquanto promotor de ideias, ao colocar na dependência de terceiros o ponto de partida do seu próprio processo. A criação de uma obra de arte surge, assim, como algo dinâmico, como um fluxo de colaborações, de contributos, de instruções, de visões.

 

Em ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE), o desenho assegura um papel de destaque em todos os processos selecionados. O desenho é aqui pensado não como uma tipologia mas antes como uma prática de representação do mundo e das ideias que o constituem. É o campo por excelência para experimentar, rasurar e voltar a tentar. Simultaneamente íntimo e aberto, o desenho não obriga a uma conclusão.

Quando a arte deixa de ter no suporte o seu referencial, cada processo assume-se como uma forma de comunicar com o mundo, de compreendê-lo melhor. Interessa-nos o que guarda uma obra – a sua postura de investigação, de descoberta, de que a curadoria não se pode alhear, antes pelo contrário, deve cultivar.

ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) define-se como um caminho possível. Acreditamos que o verdadeiro potencial das obras só se atinge quando uma diversidade de práticas é colocada em relação, quando se recusa a estabilidade, quando se procura estabelecer ligações. É esse diálogo que se testa aqui e agora.

Virá dele uma transformação nas próprias obras?

 

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Sabotagem, 2015. Diogo Bolota