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Cultura de Borla

A Cultura que não tem preço.

Teatro Experimental do Porto e Teatro Oficina apresentam "Pantagruel" no CCVF (17 a 20 setembro)

Teatro e gula, de 17 a 20 de setembro, no Centro Cultural Vila Flor

 

Teatro Experimental do Porto e Teatro Oficina

apresentam “Pantagruel”

“espetáculo-comilança”, encenado por Gonçalo Amorim

 

 

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Entre os próximos dias 17 e 20 de setembro, o palco do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, será cenário para um espetáculo que promete fazer-nos saborear os prazeres do teatro. Durante quatro dias, sempre às 22h00, o público é convidado a fazer parte do cenário e a sentar-se à mesa de “Pantagruel” para desfrutar de um banquete.

 

Coprodução do Teatro Experimental do Porto e do Teatro Oficina, “Pantagruel” integra o 10º aniversário do Centro Cultural Vila Flor. Este é um “espetáculo-comilança”, um desafio ao apetite do público, que será convidado a degustar, de forma extravagante, uma refeição durante a representação.

 

Obra herética e subversiva, publicada em 1532, Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé Pantagruel Roi des Dipsodes, fils du Grand Géant Gargantua (Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, rei dos Dípsodos, filho do grande gigante Gargântua), de François Rabelais, configura um mundo libertário, marcado pela escatologia e por um proto-anarquismo, lidando com temas como a guerra, a religião e o uso do Poder. Excessivo e disfórico, é uma espécie de Ubu Roi “avant la lettre”, misturando-se líbido, política, escatologia, utopia e subversão. O herói, Pantagruel, é filho de Gargântua, amante da boa vida, alegre e descomunalmente forte. Ávido de vida, atravessa o mundo movido pelo seu Eros, revelando o desconcerto em que todo o mundo está.

 

Esta adaptação respeita – tanto quanto o teatro pode respeitar o excesso pantagruélico – a estrutura narrativa de Rabelais. Um conhecedor da obra reparará, contudo, na alteração de algumas sequências, na supressão de outras ou na amplificação de algumas passagens. Estas manipulações servem o propósito de concentrar o texto do espetáculo na narrativa de Pantagruel. Assim, depois de se assistir a uma contenda entre Panurge e um “grande sábio europeu” (que, animados de espírito pantagruélico batizaram de Beimufec, um anagrama com as siglas FMI, BCE e UE), acompanhamos Pantagruel desde a sua saída de Paris após receber a notícia de que os Dípsodos, comandados pelo rei Anarca, invadiam a Utopia, o país dos Amaurotas. Para os derrotar, Pantagruel lutará com trezentos gigantes e com Lobisomem. Depois da vitória, Pantagruel entra na cidade dos Amaurotas e Panurge transforma o rei Anarca num vendedor de molho verde. Com o apoio dos Amaurotas avançarão depois para a colonização da Dipsódia, a terra dos sequiosos.

 

Um conhecedor da obra reparará também em alguns enxertos, apesar de discretos. São paráfrases e citações de obras que surgem aqui para ajudar a explicitar a moldura dramatúrgica da versão do texto que aqui se apresenta. Assim, aqui e ali, polvilha-se Rabelais com Alain Badiou, Karl Marx ou Rosa Luxemburgo (numa frase já usada num outro espetáculo...) (e também se poderão encontrar alguns momentos de liberdade poética do adaptador...). E por lá pairam também as reflexões de Boaventura Sousa Santos ou de Slavoj Zizek sobre a atual crise financeira e económica... E, claro, na leitura de Rabelais, explora-se também de A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento (escrito em 1940 e publicado em 1965), de Mikhail Bakhtine e do conceito de Carnavalização.

 

A obra de François Rabelais (1494-1553) é das mais singulares da literatura ocidental. Para Chateubriand ele é “um dos grandes génios da Humanidade”. Para Théophile Gautier trata-se de “um Homero trocista”. Voltaire, que na juventude tinha Rabelais como um “um filósofo ébrio que apenas escreveu enquanto bêbado”, acabará rendido à sua erudição e humor. A escrita incendiária, libertina, infeciosa, desbragada, subversiva, valerá, a Rabelais, ao longo da vida, a perseguição de várias instituições de poder. Considerado por muitos como o autor “do livro mais depravado de todos os tempos”, foi um incómodo permanente para todos os dogmas, que sabia desmascarar com a sua extravagante imaginação.

 

Com encenação de Gonçalo Amorim, “Pantagruel” é uma adaptação da obra de François Rabelais pelo dramaturgo Rui Pina Coelho. O espetáculo conta com a interpretação de Ivo Alexandre, Marcos Barbosa, Catarina Gomes, Diana de Sousa e Raquel de Lima. A cenografia e os figurinos são assinados por Catarina Barros.